quinta-feira, 26 de abril de 2012

Luanda Bar






Onde morria o dia e começava a noite, numa esquina da vida, ficava localizado o Luanda Bar. O boteco era diminuto, de poucas cadeiras, mesas carcomidas pelo tempo, com imagens de São Jorge e Iemanjá e algumas máscaras nativas da África que adornavam suas paredes sujas, descascadas, com tijolos á mostra, cheias de limo, que desafiavam todo o bom senso e a higiene pública. Seu único banheiro era uma aventura a parte para os pobres frequentadores que tinham passado da conta e deviam evitar com cuidado o contato com suas paredes úmidas e madeiras sempre sujas caso tivessem o desprazer de utilizá-lo.

Nesse antro se reunia ao fim da noite a nata da boemia da cidade, uma verdadeira fauna de viciados, pequenos traficantes, bichas velhas, artistas e damas da noite já um pouco passadas nos anos que na madrugada, após as noitadas nas boites Coliseu ou no Flowers, os únicos redutos gay da cidade, ou da boite Pigmalião na João Pessoa, vinham degustar a iguaria do lugar, sua famosa “canja de galinha” que era divulgada aos quatro ventos, de boca a boca, pelos malandros, notívagos e pela turma da noite de poucos recursos.

Na época, em pleno regime militar, a cidade dormia cedo, como uma grande caserna, o toque de recolher do frio invernal levava a “gente de bem” depois do Jornal Nacional e da novela a se recolher embaixo de cobertores enquanto os pobres boêmios vagavam como zumbis entre um boteco e outro animados pelo pervitin e pelas anfetaminas importadas da Argentina, nessa época  os gays eram chamados de veados, mas até mesmo a elite, a nobreza da cidade, visitava escondida seus redutos, talvez por falta de opção ou por gosto mesmo, ou iam na João Pessoa onde as casas da luz vermelha prosperavam muito antes do advento da Tia Carmem.

Mas era no fim da noite que o Luanda Bar tinha seu pico de frequência, pois todos que saiam das boates e gafieiras nas redondezas da Jose do Patrocínio procuravam o diminuto boteco quase na esquina da Venâncio em busca da sopa milagrosa que curava o porre de muitos.

Seu dono, seu Germano, era um negro forte e mal encarado, como mandava a tradição do lugar, sempre atrás do balcão servia as cervejas ou rabos de galo, sem muito assunto. Enquanto isso dona Josefa, sua franzina esposa, lá do fundo, onde chamavam de cozinha, preparava e cortava os temperos daquela dádiva dos deuses que muitos esperavam ansiosos.

Certa noite, lá pelos idos dos anos 70, o bar como sempre enchia aos poucos, e nas suas mesas estavam sentados alguns dos frequentadores mais assíduos, logo no canto “Cabelo” o “vapor” da zona reunia seus clientes, outros viciados, para uma “saideira”, pois eles faziam questão de fazer uma “presa” para o seu fornecedor pagando do próprio bolso algumas “cervas”, já totalmente alterados e com os olhos esbugalhados pela química. Na outra mesa, duas bichinhas velhas iam pagando cervejas, undebergs e pedindo tremoços para acompanhar as biras, pois tentavam seduzir dois moleques com cara de zumbis, completamente “chapados” e confundir a cabeça dos moços atraentes. Na mesa do outro canto estava sentada Florisnalda, ou melhor, “Jane Fonda” como era chamada pelas colegas e clientes, cada vez mais raros. Ela esperava após o árduo e cansativo expediente noturno na boite e umas poucas micharias ganhas à duras penas e alguns boquetes tomar seu caldo para voltar para casa no primeiro ônibus que passasse na madrugada que recém acordava. No centro, como sempre, sentava o velho professor universitário, que havia sido cassado pelo AI-5, e que sempre que enchia a cara, o que era quase todo o dia, discursava pela rua contra o regime até levar umas bordoadas de algum brigadiano raivoso, para poder se acalmar. Foi quando chegou um jovem de cabelo longo, barbudo, com aqueles óculos de John Lennon e aquela bolsa de lona militar indefectível, que distinguia os estudantes hippies e intelectuais subversivos dos jovens de boa família cristã. Pediu uma cerveja para o sempre mal humorado dono do bar e sentou sozinho em uma mesa. Parecia nervoso e olhava a porta do bar a todo o momento.  Após algum tempo foi até o seu Germano e cochichou-lhe algo no ouvido recebendo um sonoro não como resposta o que fez com que o rapaz em pânico voltasse ao seu lugar. Seu Germano, por alguma estranha razão da consciência dignou-se então a ir até a cozinha confabular com sua esposa e logo uma discussão entre os dois podia se ouvir:

- Ele poderia ser nosso filho Germano! Ajude o menino, nóis cemo gente de bem, não vamu deixá uma desgracera dessas acontece.

Seu Germano saiu desacorçoado da cozinha, pois tinha grande respeito pela opinião da companheira, e chamou de novo o rapaz conduzindo-o para o fundo do bar, onde ficava o banheiro vicentino que era adjacente ao depósito onde guardavam os restos dos galos pretos, matéria prima indispensável para o prato principal da casa, e voltou sozinho das catacumbas que seus fregueses pouco conheciam, lugar sinistro, fora do entendimento dos frequentadores, que preferiam não perder a magia da degustação com a desilusão de uma realidade além da sua imaginação e que os fiscais sanitários, na época também “não viam”.

Passado alguns minutos entraram dois sujeitos com armas na cintura que pela cara denunciavam sua profissão de “ratos”, que era como se chamavam e ainda se chamam as autoridades policiais, um com cara de fuinha que de fato parecia uma ratazana de pescoço comprido e outro que tinha cara de abestalhado compensada com os fortes músculos que impunham respeito e ocupavam toda a estreita saída do bar. Logo que entraram se interromperam as conversas e eles já foram anunciando a sua oficial presença:

- Policia Civil, é o DEOPS pessoal, tamos procurando um cabeludo de bolsinha, um comunista subversivo que estava colando panfletos na UFRGS agora de noite. Um cidadão disse que ele veio para esse lado. Alguém viu?

Silencio total, ninguém esboçou reação alguma, até o professor sempre do contra e espevitado calou-se, pois se reclamasse sabia que, com sua ficha, qual ia ser o seu destino, ser esgarçado a porretadas, no pau de arara em alguma delegacia insalubre, como já havia acontecido antes com ele. Todos de uma forma ou de outra já tinham sentido na pele a força da ditadura, ditabranda, como diziam alguns. Todos carregavam no lombo as lembranças dos “carinhos” feitos pelos “ratos” que tudo podiam com o povo comum e por isso resolveram se calar em perfeita cumplicidade.

O cara de fuinha resolveu revistar o fundo do bar, seu Germano olhou para baixo do balcão em busca do seu machado de cortar pescoço de galinhas e do seu porrete que sempre tinha à mão para acalmar os mais exaltados pela bebida e imaginou uma peleja dura caso o rapaz fosse descoberto. “Cabelo” e seus colegas de vício, todos “ligados”, se coçaram entre enfrentar os dois ou fugir dali caso a coisa esquentasse. As duas bichinhas se encolheram ao lado dos bofes, que pouco entendiam o que estava acontecendo pelo alto nível etílico. Quando o “rato” seguiu para o fundo da espelunca todos prenderam a respiração imaginando o pior.

- ARRRGHH! Que banheiro fedido, que porcaria, parece até que tem alguém morto aqui dentro – Disse o polícia que após uma olhada de leve, desistiu da revista e deu um passo para trás, com medo do depósito de lixo infecto que exalava o cheiro dos resíduos da canja. Não valia a pena sujar suas roupas, a calça Lee recém-importada de contrabando, naquele buraco sórdido.

Saiu injuriado dos fundos do bar e olhou vagarosamente para cada um dos presentes tentando flagrar um pequeno sinal que denunciasse estarem escondendo algo dele, com sua acurada percepção profissional forjada da repressão desse povo marginal que habita a noite e que muitas vezes havia colocado em seu devido lugar nos porões do Palácio da Policia. Nenhuma reação da escória. De fato pareciam estar só bebendo e até mesmo seu Germano assumiu um ar fingido de negro bossal, que pouco entende as palavras dos brancos, enquanto sua esposa, sem perturbar-se, continuava na confecção de sua canja mágica.

Os dois foram embora não sem antes ameaçar chamar a vigilância sanitária para interditar aquela pocilga. Um minuto de silêncio trespassou o bar, era um momento mágico, como se o Divino Espírito Santo houvesse descido ali, naquele momento, e  sua chama tivesse  brilhado por instantes na cabeça de cada um dos presentes; velhos marginais, viciados, bêbados, prostitutas, todos irmanados por uma justa causa que é a humanidade. No fundo do bar, baixinho Florisnalda rezava: - O Senhor é meu pastor, nada me faltará...

Logo a canja ficou pronta e todos se serviram, e o rapaz foi trazido pelo seu Germano direto das catacumbas, do fundo, como um herói mal cheiroso ressuscitado, e foi aplaudido por todos. Dona Josefa serviu o quase menino na cozinha, como uma mãe serve um filho que retorna de uma longa jornada, sem se importar pelo fedor. Ela estava especialmente numinosa, como uma santa padroeira desses brasis, e seu Germano  como Xango, orixá guerreiro, com seu machado de cozinha, cuidava a porta para ver se os “ratos” não davam uma incerta. Todos se sentiam eufóricos e vitoriosos, queriam por que queriam pagar a conta do guri, mas seu Germano anunciou que seria por “conta da casa” desde que o comunistazinho, como chamava o rapaz, não voltasse mais ali.

Tudo isso se passou, como relatei, foi lá pelos idos dos anos 70, na época da Ditadura, ditabranda, que matava e violentava as pessoas nos seus porões imundos. Foi um banheiro sujo de boteco e um bando de malfeitores que salvou aquele rapaz do pior. O Luanda Bar já não existe mais, em seu lugar está instalada uma loja dessas tatuagens da moda, moderna e bem limpa. Nada lembra aquele passado de terrores noturnos e festas furtivas. Juro por Deus meninos. Eu vi...

domingo, 15 de abril de 2012

A POLACA




Contam que a Polaca era faca na bota, ou melhor de navalha na liga, uma legitima Solingen que sempre carregava escondida por debaixo da saia pobre de antiga mulher da vida. Era boa de briga, meio gordota, desdentada, fumante e beberrona de fazer inveja aos marujos que fisgava no “Cabaré do Galo” na Cabo Rocha, sempre algum incauto recém desembarcado no cais do porto. Mas ela gostava mesmo era de se refestelar no batuque no “Areial da Baronesa” ou na “Ilhota” junto com os negros cabungueiros e acendedores de lampião que ainda faziam ali seu lugar de diversão longe dos olhos cheios de censura dos brancos podres. Ela se dizia escrava branca e, portanto, porque então não viver com os filhos dos escravos que ali se divertiam com suas danças? O povo negro por ser a mais baixa classe tinha menos preconceitos com as moças da antiga profissão que por superstição ou por costume sempre traziam regalos para os santos orixás nos dias de festa no terreiro. Ali a mandinga corria solta sem o controle das beatas e as ameaças e pauleiras da milícia. A cachaça trazida de Viamão de canoa pelo Arroio Dilúvio e a diamba era traficada e consumida a farta nos folguedos.


Dizem que a Polaca tinha encalhado ali como muitos outros que tinham embarcado nas naves vindos lá das “europas”, mas que jamais retornavam para seus portos de origem. Padeciam como navios abandonados pelos donos, avariados no cais, sem tripulação que os guiasse de volta. A cidade era como um sargaço de gentes inominadas, sem papéis, de estranhas origens, que ali sucumbiam às doenças, ao abandono, e a bebida barata. Pelas suas ruas estreitas de casas baixas, linhas tortuosas, próximas dos mangues e de uma umidade insalubre, se acotovelavam os menos favorecidos e as casas de perdição, das mulheres desafortunadas pelo destino, enquanto as famílias abastadas procuravam a segurança das partes mais altas da urbe para fugir aos contágios e ao ar pestilento do rio lago. Eram comuns doenças como a tuberculose, a disenteria, o tifo, o sarampo e a lepra entre os mais pobres. Quando ocorria uma epidemia os cemitérios ficavam cheios das almas de anjinhos e jovens imberbes. Como Deus é justo até os mais abastados pagavam sua cota de mortes e vítimas, era então que lindos féretros de carruagens acompanhavam os parentes dos mortos até os mausoléus de família. “Essa cidade é o fim do mundo ou quase lá”- dizia a Polaca, entre um gole e outro de bebida, e ninguém tinha coragem de contrariá-la.


Quando a orquestra mal tocava ela batia palmas e pedia bis e ensaiava seus passos da polca, era quando ficava quase bonita. Sonhava entre as fumaças do haxixe que remoçava e com energia forçava seu par a correr o salão, um simples galpão de terra batida onde de tempos em tempos um moleque abaixava a poeira com o regador. Delirava palavras estranhas em outro idioma que fazia seu companheiro fortuito de quadrilha pensar que ela havia enlouquecido, perdida que ficava em algum delírio provocado pelos espíritos da aguardente. Ela em seu devaneio imaginava que ainda era menina e sua mãe alisava com carinho seus pelos e arrumava seu vestido de baile. 


Luzes do grande candelabro iluminavam o salão enquanto a orquestra embalava seu ritmo, Anna dançava de novo com aquele príncipe cheio de medalhas ao som da valsa. Os olhares das damas, a cobiça dos valetes, a lista dos seus pares a preencher todas as danças da noite, de repente a polka atrevida eletrizava o salão para desespero das matronas que não acompanhavam os rápidos passos das donzelas e mancebos. Entre todos os bailados e danças que tão bem conhecia, só Anna se destacava, com seu busto atrevido de menina moça enfiado no caro vestido, as louras madeixas bem tratadas, o olhar zombeteiro de travessa, o seu claro sorriso enfeitiçava os rapazes no amplo recinto todo de mármore.


Anna, desde moça, sempre fora uma mulher dada a outros lençóis, comentavam as de má língua, menina desabrida, voluntariosa e sem pudores, era recebida pelos homens da corte, com prazer, e pelas mulheres, com inveja e desprezo, nos salões onde a nobreza frequentava, e sempre atraía a atenção masculina com seus lindos trejeitos e caprichos de menina moça. A origem plebeia e a religião judaica que professava alimentava o preconceito que nem a riqueza dos pais afastava. Ainda muito jovem caiu nas graças do Arquiduque, segundo dizem, homem casado, de muitos amores, que após seduzi-la e torná-la moça, para desgraça da família que a repudiou, mandou seus ministros arranjarem para Anna às pressas um casamento de conveniência com um parente afastado, da baixa nobreza, que cumpria a função de palafreneiro, pois o mancebo  desde pequeno demonstrara preferir a companhia dos cavalos do arquiduque e a presença máscula dos cavalariços aos salões de baile e às festas da corte, mas costumava encantar a todos com os lindos uniformes que trajava com o mesmo capricho de um oficial prussiano nos desfiles das armas e garboso competia suas fardas engalanadas com o brilho das reais montarias nas paradas.


A crescente indiferença que o volúvel Arquiduque cada vez mais votava à sua jovem donzela conforme ela amadurecia e a abstinência de paixão e a falta do amor do marido pouco galante e afeminado, fez dela cada vez mais necessitada de outros encantos de paixão e assim levou-a por carência de agrados a preencher seu tempo em aventuras com outros mancebos virando o assunto predileto dos mexericos das donzelas e matronas da corte que denunciavam entre si seus escândalos com prazer mordaz. Quando estourou o conflito na Europa ela não pode deixar de sentir-se aliviada quando o marido seguiu para a guerra junto ao seu regimento de dragões. Na primeira grande batalha, em uma carga de cavalaria suicida contra armas muito mais avançadas e mortíferas do inimigo o pobre marido foi massacrado junto com seu regimento e pela glória póstuma recebeu todas as honras e medalhas de cavaleiro de uma compungida e agradecida Polônia.


Sem a proteção do Arquiduque que a essa altura já tinha ido a busca de outras aventuras amorosas e transformada em jovem viúva, sua condição de mulher de pouca experiência nas coisas práticas da vida, acostumada aos confortos e mimos de uma cortesã, levou-a a confiar seus bens e valores à pessoas da nobreza que reputava sérias e impolutas, amantes que no esforço de bem servi-la dilapidaram o patrimônio do falecido em investimentos duvidosos. Com o findar da guerra pouco havia restado do seu legado recebido do marido. Para ela não faltaram conselhos dos amigos, mas acreditando que seria mais fácil refazer sua vida bem longe dos olhares maldosos e mexericos da corte, que se tornavam cada vez mais atrevidos e insolentes, das pessoas que viam com disfarçado prazer sua desdita, dispensou os criados restantes e preparou suas bagagens e com a venda da última propriedade que restava conseguiu recursos para poder comprar uma casa confortável e viver uma nova vida no outro lado do mundo, quem sabe casar com um fazendeiro abastado que segundo diziam possuíam propriedades nas Américas maiores que todo o seu país natal. Seus encantos de viúva bem fornida e atraente beleza lhe bastariam para alcançar seu intento na terra das oportunidades, projeto que refletia toda a malícia de uma menina moça aventurosa e imatura que nada conhecia das maldades do mundo.


Em Hamburgo embarcou num vapor confortável e veloz com destino ao Rio de Janeiro. Levava nas bagagens as lembranças de uma vida de mimos, o que havia restado das joias e prendas ganhas dos amantes e recursos suficientes para investir em seu conforto por algum tempo até conseguir um pretendente que pudesse arcar com seus caprichos no Novo Mundo. Sua estratégia cartesiana e infalível lhe obrigava a representar um ar virginal de viúva desconsolada, pois a mulher que viajava só nesses dias passava por ser prostituta, mulher fácil e por isso permaneceu como uma presença discreta, quase uma freira, durante os primeiros dias da viagem até conhecer Gennaro, homem atraente, com bigode bem tratado, vestindo trajes da última moda que afirmava para todos ser conde e com andar nobre de dandi, porte de cantor de ópera, um verdadeiro Caruso, perambulava pelo convés do vapor atraindo os olhares de homens e mulheres que indistintamente queriam lhe devotar igual atenção que ele retribuía cobiçoso até o momento em que colocou seus olhos de fera predadora na pobre pomba indefesa que vagava entre os famintos falcões. Ela atraía naturalmente a atenção de tripulantes e passageiros com seus lindos olhos azuis, cabelos dourados e perfeito sorriso de menina O luto discreto de Anna e sua beleza infantil atrai-o de forma irresistível como uma abelha que revoluteia sobre a flor desabrochada na primavera. Aproximou-se no início com afetada indiferença, para não assustar a presa, oferecendo seus préstimos de conhecedor de destinos nas Américas e de homem de negócios viajado e tarimbado. Primeiro como lisonjeiro serviçal, depois como galante apaixonado e por fim como amante fidelíssimo fazendo declarações apaixonadas e inebriando os sentidos da linda moça com flores e champanhe. Até pretendeu forjar um duelo em sua honra com um gracejador inconveniente. O tal conde tão bem interpretou sua indignação viril contra o adversário, num arroubo heroico e tom marcial, que o medroso fugiu cheio de pavor. Suas atenções desusadas para a jovem provocaram nela o despertar, pela primeira vez na sua curta existência, da paixão, há tanto tempo adormecida, para desgosto dos outros viajantes solteiros que não tão secretamente abominaram e invejaram a sorte do italiano.


Logo os dois amantes trocaram confidências. Compararam destinos. Fizeram promessas. Amaram-se nas alcovas de suas cabines onde o conde pode demonstrar seus dotes de homem carnal que conhecia bem as fraquezas humanas e que sempre roubava suspiros profundos até das amantes mais experientes acostumadas na “belle époque” com homens frios, distantes, em sua maioria, insossos e sem polpa, os falsos moralistas de antanho. Mas falsa moral e nenhuma moral são dois extremos que se acompanham pelo mundo como irmãs siamesas. E paixão se confunde com despudor com facilidade ao clarão da lua cheia que cinge o oceano. Esse corsário italiano roubara o coração de Anna sem dó nem piedade e suas promessas de amor eterno tinham o mesmo valor das prendas, anéis e correntes douradas, simples bijouterias que prodigalizava para iludir as moças solitárias embarcadas e roubar seus corações. 


Fizeram planos de casamento quando chegassem na terra nova. Gennaro afirmou manter negócios no sul do continente em uma cidade que Anna entendeu ter um nome agradável e feliz no idioma português, o que parecia um sonho para uma imigrante recém-chegada e foi sem maiores objeções que resolveu seguir junto do amado por aquele estranho e lindo continente onde a natureza verdejante enchia os olhos dos estrangeiros. Pegaram outro vapor menos confortável e seguiram pela costa que avistavam de tempos em tempos. Era como um sonho de pura aventura, que culminou com sua chegada nesse porto feliz como chamavam os locais. A cidade causou má impressão a primeira vista, poucos prédios, ruas tortuosas e um povo de negros, mulatos e mestiços com roupas velhas e uns poucos brancos e europeus que passavam em carros e carroças, numa fria e pálida tarde que se inclinava para o fim, seguiam indiferentes aos pedestres, o que criava uma atmosfera ainda maior de tristeza. O cair da noite obrigava a pressa das pessoas no retorno às suas casas e o fechamento das poucas lojas do comércio no centro. Foram para o melhor hotel da cidade e naquela noite Gennaro ultrapassou todos os limites como amante atencioso e dedicado. Tirou de suas bagagens um cachimbo de madeira que tinha um fornilho de porcelana e depositou nele uma substância escura que parecia cera de lacre e ele ao acender puxava e aspirava por uma pequena embocadura de âmbar amarelo, a fumaça que fazia revoluções pelo quarto com um vago odor de perfume do oriente. Ele confiante ofereceu-lhe uma tragada e ela logo sentiu uma gostosa letargia que envolvia todo o corpo e sua mente cheia de lascívia entregou-se às vontades e aos carinhos do italiano que entre os lençóis da cama a fez sentir como nunca nenhum homem antes todos os prazeres, até a saciedade e exausta perdeu os sentidos, deslizando para um sono profundo cheio de sonhos exóticos com castelos e reis, onde viveu uma eternidade como princesa em apenas uma noite.


Acordou tarde na manhã seguinte com um estranho sabor acre na boca. Olhou ao redor e percebeu que algo estava errado. As bagagens de Gennaro haviam desaparecido. Levantou-se e arrastou-se com dificuldade pelo quarto ainda não compreendendo o que havia ocorrido. Foi quando viu sua bagagem remexida e deu pela falta de seu bauzinho onde guardava suas caras joias, alarmada procurou seu dinheiro e passaporte, mas também não estavam onde tinha deixado. As lágrimas começaram a rolar por sua face, o coração partido, o desespero, queria se jogar pela janela do quarto e acabar logo com todo aquele sofrimento. Como iria pagar o hotel? Como não havia percebido ter caído nas mãos de um golpista? O que faria nessa terra estranha que sequer conhecia o idioma? Passou todo o dia e a noite seguinte trancada no quarto chorando. Não se atrevia a buscar ajuda ou sair dali onde teria que prestar contas de sua estadia. No outro dia alguém bateu na sua porta e pediu que ela abrisse. Era uma voz feminina que em francês, língua que tão bem conhecia como todas as moças bem educadas em seu país, lhe falava docemente para que a deixasse entrar. Foi quando ela conheceu Madame Guinoud.


Madame Guinoud era mulher de meia idade, ainda atraente, com traços europeus e que falava um francês com leve sotaque do leste europeu que passava despercebido para os ignorantes do lugar. Ela tratou de pagar a conta do hotel e levou Anna para sua casa, um sobrado na rua do Arvoredo onde moravam outras jovens também sem condições que tinham sido abandonadas pelos maridos e familiares, umas tinham vindo de Buenos Aires outras eram do interior, todas tinham aparência europeia ou tinham vindo da Europa e ainda duas judias polonesas como Anna que haviam se desgarrado na vida e viviam um exílio forçado como ela mesmo. Após uma semana que Anna ficou sob os cuidados das mucamas para se restabelecer a Madame lhe chamou até seu gabinete e explicou as normas da casa. Pois do couro tinham que tirar as correias dizia, precisava sustentar aquele lar e nada mais justo que as meninas pudessem lhe auxiliar com as despesas. Sem seu passaporte Anna sabia que seria impossível voltar ao seu país. Mesmo que voltasse seria para encarar a miséria em uma Europa recém-saída de um violento conflito mundial. Nada podia ser pior do que ter que voltar e enfrentar o desprezo de sua família e as chacotas das mulheres da corte. Madame Guinoud lhe tranquilizou e disse que caso fosse mulher esperta podia tirar alguma vantagem de seu infortúnio e que muitas que tinha abrigado haviam casado muito bem com homens de alta posição na sociedade, estancieiros ricos, muitas foram morar no Rio de Janeiro onde não sabiam de suas origens e podiam começar nova vida como madames honradas. Anna agradecida aceitou as regras da casa e na mesma noite, com a ajuda das mucamas e das companheiras de quarto, banhou-se, perfumou-se, pintou-se, colocou suas roupas de festa mais bonitas e decotadas e seguiram todas no automóvel da madame com chofer que deixou-as à porta de um prédio localizado na rua da Praia, como chamavam os locais, onde as “dançarinas” entravam pela porta lateral.


Era no Club de Caçadores o ponto de encontro preferencial de intelectuais, políticos e criadores de gado e seus jovens herdeiros que estudavam em colégios internos da capital ou eram universitários, e que, apesar do nome da associação, nada caçavam da vida selvagem a não ser as “cocottes francesas” que eram disputadas pelos frequentadores. Lá se jogava pôquer e se consumiam discretamente as drogas da moda, a cocaína corria solta. Era também chamado “Palácio das Lágrimas”, pelo choro provocado pelas muitas fortunas perdidas por seus associados nas jogatinas e com mulheres perdulárias. O chope gelado era trocado pelo champanhe francês. Ali vendia-se cerveja, arvorada em bebida de gente fina, a dois mil-réis a garrafa. O uso do champanhe francês a trinta mil-réis a garrafa devia tornar-se compulsório para aqueles que queriam a atenção das meninas estrangeiras. E os programas com elas não saiam por menos de cem mil-réis.


Quando as meninas adentraram ao salão os olhares de todos se voltaram para elas e gritos e assobios ressoaram enquanto Madame Guinoud levava Anna pela mão como um troféu, sinal conhecido entre os convivas de que uma nova presa havia ingressado no Club dos Caçadores. Apesar das diferenças de costume e idioma Anna logo se acostumou ao lugar de onde tirava seu sustento como dama da noite. Agora se chamava Annete e fingia ser francesa para os coronéis e empresários que gastavam fortunas com as garotas enquanto suas mulheres envelhecidas precocemente, beatas sem graça e cheias de filhos cuidavam de seus lares e desculpavam as escapadas dos esposos que assim pelo menos lhes davam algum descanso de suas vontades pecaminosas comuns aos enfastiados homens de negócios. Quando a orquestra tocava Annete fazia furor com sua polca e logo pegou o jeito do tango local que era dançado juntinho pelas moças pecaminosas e seus pares com cabelos cheios de brilhantina dando um ar de civilidade européia ao exótico lugar. Foi lá que Anna acostumou-se ao uso da cocaína como estimulante que mandava manipular na farmácia do Centro sob a desculpa de dores inexistentes mal curadas, mas que servia de remédio com o champanhe francês para bloquear sua mente quando era obrigada a fazer companhia e ter intimidades com certos senhores que mais pareciam múmias ou homens brutos dominadores que quando bêbados se comportavam como bestas demoníacas quando estavam a sós com as pequenas e tinham “as costas quentes” pelo dinheiro e poder.


Com o fechamento do Club dos Caçadores por pressão das senhoras influentes da sociedade local, seus donos foram para o Rio de Janeiro abrir um cassino com todo o conhecimento que adquiriram em Porto Alegre no ramo, dizem que foi na Urca. Logo depois surgiu a Boite Marabá que tinha, além de orquestra, músicos que se apresentavam com as novas influências musicais da noite vindas do eixo Rio-Buenos Aires, depois foi o Cabaret da Margot animado por feras da musica da noite boemia Mais o Istambul e o American Boite. Todos com orquestra de danças de jazz e tango. Os músicos saíam dos cafés e das rádios e quase sempre iam pra noite e pras serenatas, que podiam terminar às oito da manhã. Madame Guinoud sempre advertia as meninas para se manterem afastadas desses personagens perdulários e boêmios que não tinha onde cair mortos dizia, mas sempre alguma cocotte se desviava e caia de amores por algum músico da noite ou pior se apaixonava por um estudante sem dinheiro que passava a proteger e como Robin Hood tirava as somas dos ricos estancieiros para pagar os caprichos dos jovens pobres. No auge de uma carreira de sucesso como dançarina e acompanhante de velhos ricos, já mulher madura Annete se apaixonou por um dessa laia, cega por amor cometeu o maior crime na sua profissão, acabou engravidando do sujeito e brigou com Madame Guinoud até ser expulsa do sobrado, indo morar em uma casa de cômodos com o amado que ao sentir a perda de glamour da situação, isto é, ter engravidado uma prostituta conhecida da cidade que agora não tinha mais recursos, sumiu como havia chegado, dizem que embarcou em um vapor para o Rio e nunca mais foi visto. Anette enlouquecida de dor não teve outra saída a não ser entregar o filho recém-nascido para uma casa de caridade e adoção, o que partiu seu coração em definitivo como uma jarra de cristal, ela nunca mais seria a mesma. Não seria a ultima vez que teria que cometer esse pequeno grande abandono.


Já não bastasse seu estilo da vida que abusava da noite e findava quando a aurora despontava, seu afastamento de Madame Guinoud não fez bem para os negócios. As casas noturnas que agora frequentava já não eram tão importantes, os excessos começavam a marcar seu rosto antes angelical. A decadência aumentava o consumo de bebidas e drogas e logo começaram barrar seu ingresso nas casas finas e foi cedendo cada vez mais sua vida para crises de abstinência, quando lhe faltava o dinheiro ficava depressiva e agressiva, e descarregava sua ira nas amigas da noite e nos clientes que se aborreciam e faziam queixas para os proxenetas donos das casas. Certa vez ao aborrecer um cliente o dono mandou o “leão de chácara” dar-lhe uma lição, os golpes lhe arrancaram dois dentes que nunca mais conseguiu disfarçar. Logo estava na Cabo Rocha servindo marujos que chegavam de portos distantes e de Anette virou a Polaca, boa de briga, navalha na liga, vivendo dos trapos que lhe restava da vida. Passando de mão em mão, apanhando de cafetões, vivendo em casas da luz vermelha, descendo cada vez mais baixo até acabar no Cabaré do Galo onde frequentava a marinhagem e os negros. Havia lá um tal de negro Lupícinio, homem pobre que sempre estava às voltas com algum amor perdido e que escrevia versos chorosos da sua desdita com as mulheres da vida e transformava em sambas. Por aquele tempo ela percebeu o que acontecera com Gennaro e sua estranha relação com Madame Guinoud e como ela havia aparecido oportunamente naquele dia no hotel, o crápula lhe vendeu para a “madame”, era essa sua ocupação, como uma escrava branca. Por isso preferia os batuques dos negros cabungueiros e acendedores de lampião, era quando dançava perdida em sonhos nos terreiros imaginando os grandes salões, o lustre de cristal o salão cheio de mármores e dançava a polka como enfeitiçada e murmurava palavras incompreensíveis para o gentio. Às vezes podia ser encontrada vendendo velas votivas nas escadarias da Igreja do Rosário, ou com sua bandeja era vista vendendo cigarros na Cidade Baixa, na estação da Ponte de Pedra do “trem de merda”, como chamavam por sua anterior humilde origem de transporte dos cabungos cheios de dejetos que seguiam para o rio e que então na época seus vagões e a locomotiva iam para a Zona Sul onde os ricaços que mantinham suas mansões e casas de campo residiam bem perto do Guaíba e tomavam banho em suas praias. Muitos dos seus ex-clientes de noitadas passavam por ela em direção ao trem e nem notavam quem era ou quem tinha sido aquela humilde vendedora. A última vez que a vi foi na passeata contra os nazistas logo que começou a Segunda Guerra, vestia andrajos, mas carregava com orgulho seu corpo cansado pela noite na passeata dos estudantes e operários, nunca esquecera sua origem de polaca e sua condição de judia.